Porque guardamos no Museu uma máquina de costura?

Máquinas de costura continuam sendo úteis 200 anos depois de terem sido criadas.

O Museu Vicente de Azevedo possui em seu acervo um exemplar de uma máquina de costura Singer, muito antiga. Ela é pequena, com metais prateados, pintada de laca preta e decoração em arabescos dourados. Portátil, cabe em uma linda caixa de madeira compensada com alça, para fácil armazenagem e transporte. Para colocá-la em funcionamento era preciso girar uma manivela, que fazia uma agulha vertical com a linha correr sobre o tecido. Mais tarde a máquina recebeu um complemento, um pequeno motor elétrico, que poderia substituir a manivela.

Sabe-se que este exemplar foi fabricado na Escócia, em 1913. Foi guardado pela família de José Vicente de Azevedo, não por ser um objeto caro ou raro, mas por estar carregado de memórias e significados.

No Brasil, a primeira loja Singer foi aberta no Rio de Janeiro, na Rua do Ouvidor, no ano de 1860. De início era um item caro, para poucos. Dona Angelina Moreira de Azevedo (1835- 1911) mãe do Conde José Vicente de Azevedo, deve ter sido dona de uma dessas primeiras maquinas de costura que foram vendidas no Brasil.

A seguir surgiram filiais em outras cidades do país, como São Paulo. Encontramos os primeiros anúncios de maquinas Singer no Jornal “A Província de São Paulo” no ano de 1875.

Aos 34 anos, Dona Angelina, moradora de Lorena, cidade do Vale do Paraíba paulista, quando ficou viúva, endividada e com três filhos a criar. Seu marido, o Coronel José Vicente de Azevedo, havia morrido vítima de uma emboscada política. Ela era proprietária de terras, mas estava sem recursos para tocar a vida diária e não queria pedir ajuda aos pais. Foi assim que seu filho do meio, José Vicente, aos 9 anos, precisou assumir o papel de homem da casa. Além de estudar, ele passou a acompanhar o transporte dos produtos agrícolas da fazenda para a cidade, o trabalho dos escravos na colheita do café.

Dona Angelina buscou um complemento de renda, e para isso comprou uma máquina de costura na Corte e passou a confeccionar finos vestidos de seda para as senhoras da região. José Vicente à noite costumava ajudar a sua mãe nas costuras. Conta-se que por vezes, de tão cansado, o menino adormecia na monótona tarefa de girar a manivela desta máquina.

Esse momento trágico e difícil pelo qual a família passou não foi esquecido pelas futuras gerações. O trabalho na infância, a orfandade precoce, fortaleceram o caráter de José Vicente e a promessa que fez a si mesmo de que iria “ajudar aos que mais necessitam”.

Sobre a máquina de costura que está no Museu, sabemos que pertenceu à sua neta mais velha Maria Angelina Vicente de Azevedo Franceschini, e em seguida foi doada à sua bisneta Maria Gabriela Franceschini Vaz de Almeida, que, por sua vez, a doou ao Museu.

Veja a nossa Singer em perfeito estado.

Em 2020 a máquina de costurar voltou a ser peça importante em muitos lares brasileiros. Seu uso está atrelado tanto a um complemento de renda como a inúmeros atos e projetos de solidariedade. Em função da pandemia de coronavírus, a máquina de costura aparece com frequência com certo destaque nas redes sociais, retomou sua antiga visibilidade. Muitas pessoas, em isolamento em suas casas e, se sentindo impotentes com tal imobilidade, passaram a usar a máquina de costura, na produção de máscaras de tecido e outros itens de proteção individual como viseiras.

As máquinas de costura foram fruto do trabalho de inúmeros inventores, que tinham como objetivo criar uma máquina capaz de substituir parte do trabalho manual e aumentar a produtividade, seja nas fábricas, ou em ateliês de confecção. Antes do seu surgimento, qualquer processo de unir tecidos era realizado totalmente à mão, por diversos costureiros e poderia levar dias ou até meses. Dentre os seus muitos inventores, citamos o marceneiro inglês Thomas Saint que, em 1790, fez o que consideramos a primeira máquina de costura: seria usada para costurar sapatos e botas!

Naquela época a simples ideia de se criar máquinas era vista com total desconfiança, causando desagrado entre os trabalhadores, que chegaram a quebrá-las. Somente muitos anos mais tarde alfaiates e costureiras passaram a ver na máquina de costura uma aliada, uma forma de produzir mais e aumentar sua renda. Esta guinada se deu, em parte, graças ao pensamento estratégico do empresário estadunidense Isaac Singer (1811–1875):

Singer mudou a ideia de que as máquinas de costura deveriam estar em fábricas. Ele pensou e desenvolveu máquinas baseado numa ideia que vai se espalhar pelo século XIX — a de que as máquinas de costura eram aparelhos para serem usados em casa ou no máximo num pequeno ateliê. Desta forma, cada família poderia ter a sua máquina, fazer a sua costura. (Monteleone, 2012, p. 10)¹

O MVA é um espaço de divulgação, reflexão e preservação da história da família Vicente de Azevedo, sua obra social em especial no Ipiranga

O MVA é um espaço de divulgação, reflexão e preservação da história da família Vicente de Azevedo, sua obra social em especial no Ipiranga